Ben Bernanke: Uma visão da crise de 2008 e do cenário econômico atual

A visão de Ben Bernanke na Expert 2019.

access_time 08/07/2019 - 16:35
format_align_left 5 minutos de leitura

Tivemos o prazer de receber na Expert 2019 o ex-presidente do Banco Central americano (FED), Ben Bernanke.

Durante sua carreira, Bernanke foi professor da escola de negócios de Stanford, chefe do departamento de economia da Universidade de Princeton (ambas nos Estados Unidos) e presidente do FED entre os anos de 2006 e 2014, quando o mundo foi afetado pela maior crise econômica mundial da história moderna, entre os anos de 2007 e 2008.

De forma geral, Bernanke se mostrou otimista com o desempenho da economia global desde 2008. Ele acredita que isso foi, em alguma medida, fruto de uma intervenção rápida e bem-sucedida do FED.

Quando questionado sobre a sustentabilidade do crescimento global, após 10 anos de alta ininterrupta, Ben Bernanke destacou três fontes potenciais para uma desaceleração:

(1) Crise Financeira – que ele não vê no radar;

(2) Alta Inflação – que também não parece estar acontecendo, e;

(3) choques Geopolíticos, como a crise do petróleo dos anos 70 – aqui, a guerra comercial entre os EUA-China preocupa.

Nossa visão

Nossa visão está em linha com a de Ben Bernanke: uma escalada nas tensões comerciais entre as duas maiores economias do mundo, EUA e China, pode ter um efeito negativo significativo sobre o crescimento da atividade econômica global.

Por isso, deve ser monitorada de perto. Entretanto, nosso cenário base é de que algumas tensões permanecerão no radar em 2020, mas não trarão maiores consequências para as principais economias do globo.

No que diz respeito à independência de Bancos Centrais, tema também abordado por Ben Bernanke, acreditamos que a independência deva ser blindada a fim de evitar que ciclos políticos contaminem a condução da política monetária e ponham em risco a estabilidade de preços dos países.

Abaixo segue um breve resumo dos pontos trazidos por Bernanke pra Expert 2019.

1. A crise de 2008 e os desafios enfrentados

Na primeira parte da entrevista, Bernanke falou dos principais desafios que enfrentou em seu primeiro ano no FED.

Políticas fiscais e efeitos recessivos?

O primeiro deles foi o de estabelecer um diálogo com políticos americanos para elucidar a dimensão do problema e discutir meios pelos quais a política fiscal poderia ser usada para contornar os efeitos recessivos da crise.

De acordo com Bernanke, a postura inicial do Senado americano foi de bastante resistência e esse momento foi um dos mais sombrios, pois sentiu que a crise poderia tomar proporções muito maiores sem a ajuda do Congresso.

Amigos dos banqueiros ou da sociedade?

O segundo momento de maior desafio foi quando a maior seguradora do mundo, a AIG, perdeu aproximadamente US$ 100 bilhões com a crise e entrou em processo de falência.

O resgate da empresa era a única saída encontrada pelo FED, pois o efeito cascata dessa falência no sistema financeiro global e os riscos de espiral deflacionária poderiam trazer consequências ainda mais catastróficas para o mundo.

A dificuldade nesse momento foi de construir um diálogo com a sociedade e de fazê-la entender que não eram os “amigos dos banqueiros” que estavam sendo socorridos.

Esse processo ficou ainda mais complicado quando a AIG inadequadamente pagou bônus a alguns de seus executivos. O FED naquela época mandou a AIG desfazer esses pagamentos imediatamente. Nesse momento, a mídia mundial clamava ao FED para que “deixasse o mercado se auto-regular” e que deixasse bancos e seguradoras quebrarem. O “too big to fail” (grande demais para quebrar) passou a ter uma conotação muito negativa a partir desse momento.

2. Tensões comerciais e os impactos na cadeia global

Na segunda parte da entrevista, Bernanke compartilhou sua visão atual sobre Estados Unidos e sobre a economia global.

Disse achar que a economia americana está muito sólida: seu sistema financeiro está mais forte e disciplinado e bancos estão mais capitalizados.

No lado negativo, disse achar muito ruim que o FED sofra pressão política para reduzir os juros. Por se tratar de algo muito novo na história americana recente, acredita que isso deva ser monitorado.

Com relação à economia global, disse achar que ainda existe um grande processo de recuperação da crise de 2008 em curso e que o cenário ainda se apresenta bastante incerto por conta de guerras comerciais latentes, principalmente entre EUA e China.

Sua preocupação é que as tensões comerciais como as vistas recentemente criem stress na cadeia produtiva mundial (com possível impacto em preços) e contaminem o sistema financeiro de alguns países.

Em resumo, Bernanke se mostrou confiante nas medidas tomadas pelo FED à época da crise e nos resultados positivos produzidos por elas. Também se mostrou satisfeito em saber que o FED vem se preparando bem para possíveis contingências, e otimista de uma forma geral com a recuperação das economias desde 2008. No lado negativo, Bernanke acredita que tensões comerciais recentes e ataques à independência de Bancos Centrais são desafios a serem monitorados de perto pelos mercados, que se evoluírem, podem trazer efeitos negativos para a economia.

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