Atividade econômica desacelera em agosto, com grande heterogeneidade setorial

O setor de serviços permanece em trajetória de recuperação sólida, em linha com a reabertura da economia. Por outro lado, a indústria enfrenta escassez de matérias-primas e forte elevação de custos, e as vendas do comércio perdem fôlego.


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A recuperação da economia brasileira perdeu tração em agosto, conforme sinalizado pelo Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br, uma proxy mensal para o PIB) publicado na sexta-feira (15/10). O indicador registrou ligeira queda de 0,2% em relação a julho, após duas leituras mensais positivas. Por trás deste resultado, entretanto, existem diferenças importantes acerca do comportamento dos principais setores da economia local.

Por um lado, temos observado forte retomada do setor de serviços. Com os avanços na vacinação da população contra a Covid-19 e normalização das atividades que foram mais impactadas pelas restrições de mobilidade, o setor terciário tem acumulado ganhos no período recente. De acordo com a Pesquisa Mensal de Serviços (PMS/IBGE), as receitas reais do setor cresceram 6,5% entre abril e agosto. Neste período, destaque para o aumento expressivo de faturamento dos serviços prestados às famílias (ex: restaurantes; bares; hoteis; cinemas; eventos; cursos; agências de viagens; academias; salões de beleza; etc). Em conjunto, tais atividades exibiram expansão mensal de 4,5% em agosto e de 55% desde abril. A despeito disso, vale notar que as receitas de serviços atrelados à demanda das famílias ainda estão quase 20% abaixo dos níveis vistos antes da pandemia (início de 2020).

Por outro lado, problemas na oferta de insumos e elevação significativa dos custos vêm reduzindo níveis de produção em diversas cadeias da indústria. Muitas empresas sofrem com os prazos mais longos de entrega de matérias-primas, com dificuldades nos serviços de logística internacional e importação de bens intermediários (o custo do frete marítimo subiu mais de cinco vezes nos últimos meses, por exemplo). Em algumas atividades manufatureiras, como fabricação de veículos e produtos eletrônicos, a normalização plena dos fluxos de suprimentos não deverá ocorrer antes do 2º semestre de 2022. Além disso, o setor industrial encara elevação acentuada nos preços de energia elétrica, combustíveis e resinais plásticas (entre outros), itens que são essenciais na maioria dos processos de produção e distribuição de bens. Segundo dados da Pesquisa Industrial Mensal (PIM/IBGE), apenas uma das quatro grandes categorias econômicas (bens de capital, que abrange a fabricação de máquinas e equipamentos) mostra níveis correntes de produção superiores aos apresentados antes da eclosão da crise sanitária.

Entre os grandes setores da economia brasileira, o comércio varejista encontra-se em posição intermediária, com resultados recentes muito díspares entre as categorias. Enquanto algumas continuam a colher os benefícios do afrouxamento das medidas restritivas ligadas à pandemia (vestuário e calçados; combustíveis; artigos de uso pessoal e doméstico), outras desaceleram em meio à inflação elevada e ao deslocamento de maior proporção do consumo do mercado de bens para serviços (supermercados; móveis e eletrodomésticos; materiais de construção). Além disso, alguns segmentos do comércio estão em trajetória de queda devido à (já mencionada) falta de matérias-primas e travamento da indústria, que fazem com que a oferta de bens finais não acompanhe a demanda – neste caso, destaque para as vendas de veículos, motos, partes automotivas e equipamentos de informática e comunicação.    

Considerando os fatores destacados acima, esperamos crescimento econômico moderado nos próximos meses. Segundo nossas estimativas atualizadas, o PIB Brasileiro cresceu entre 0,3% e 0,5% no 3º trimestre deste ano em comparação ao trimestre anterior (aguardamos a divulgação de indicadores referentes a setembro para promovermos o “ajuste fino” nas expectativas). Entre os componentes do PIB pelo lado da oferta, prevemos expansão superior a 1% para o setor de serviços no último trimestre, mas quedas acentuadas para a indústria (-0,8%) e agropecuária (-2,5%, devido aos menores níveis de produção em diversas safras, como milho, cana-de-açúcar e café). Ou seja, a atividade econômica segue em trajetória de recuperação, mas com desempenhos bastante heterogêneos entre os setores e ritmo gradual de melhoria. Para mais informações sobre nosso cenário, ver o relatório Brasil Macro Mensal: Novos riscos externos, mesmos riscos locais.

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